Contributor: Justino Sarmento Rezende

  • Basoka mahsirerẽ buemʉã kʉã tʉgeñare | Reflexividades sobre as práticas indígenas

    Justino Sarmento Rezende1
    Universidade Federal do Amazonas, Brasil

    Wede nʉkarẽ – Iniciando a conversa

    Neste artigo apresento as “reflexividades” elaboradas por mestres e doutores formados no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Eles construíram diversos conhecimentos desde a vivência familiar, convívio com parentes e observação participante, dialogando com detentores de conhecimentos.  

    1. Tʉgeñare – Reflexividades 

    A palavra tʉgeñare (em tuyuka) significa conjunto de sentidos, reflexões, discernimentos e meditações. Desde o ano de 2011 alguns indígenas lutaram para o ingresso no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (UFAM). O número de indígenas no PPGAS cresceu e estão organizados em Colegiado Indígena (COLIND), para promoverem debates, elaborarem suas reflexividades que são resultados da orientação individual e coletiva. Os orientadores são instigadores para que os indígenas avancem cada vez mais nos conhecimentos de seus povos, quebrando a “casca ou casco” da “ocidentalidade” e “colonialidade” cimentada na “indianidade”. Suas dissertações e teses, são reflexividades que cruzam com os conhecimentos antropológicos acadêmicos.  

    1. Kʉã tʉgeñare hoaturige2 – organização das reflexividades acadêmicas 

    Os temas escolhidos pelos acadêmicos indígenas têm estreitas conexões com as realidades vivenciadas em seus territórios e suas pertenças étnicas. As reflexividades possuem local da fala, baseiam-se nas cosmovisões e cosmovivência de seu povo. As reflexividades possuem formas próprias de organização social, estratégias e metodologias específicas de interações intraculturais, interculturais, transculturais e intercósmicas. Sobre cada um desses trabalhos faço então uma apresentação. 

    (…), observo que a verdadeira originalidade da arte amazônica encontra-se na arte indígena que resiste através do tempo, e é uma forma de arte que, embora admirada, ainda é vista pelo público elitizado com condescendência, como uma arte primitiva. (…). A produção artística indígena, com seus objetos de poder, está incorporada à vida. Agora, na sociedade moderna, a arte indígena está segregada e muitas vezes inutilizada. A arte indígena está ligada ao uso expressivo da linguagem como um processo de comunicação que não pode existir sem um receptor. Nesse sentido, a arte do povo Shipibo-Conibo, situada em um sistema indígena, demanda uma decodificação. 

    O autor constata a presença de explicações coloniais sobre as artes indígenas e apresenta outras compreensões das artes, pinturas e tinturas que criam outras conexões com os seres amazônicos que se integram na vida de muitos povos amazônicos.   

    Iranilde Barbosa dos Santos – do povo Macuxi, estado de Roraima (RR), é membro da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima e Conselheira da União da Amazônia Brasileira (UMIAB); mestra em Antropologia Social no PPGAS (UFAM). Ela apresenta um estudo sobre a violência sofrida por mulheres macuxi da região de Surumu. Indica outras perspectivas de superação da compreensão fragmentada e estereotipada da violência perpetrada pelos homens sobre as mulheres macuxi. Destaco uma de suas falas (2021, 46-47):

    Abordando as trajetórias de vida das mulheres indígenas macuxi, demonstrei como elas percebem as violências cometidas contra elas, como fazem para punir seu agressor e o que tem sido feito para que essas mulheres saiam destas situações frequentes de violência. (…) Deparei-me com a situação de que, ainda que existam alguns estudos e documentações contemporâneas acerca do cotidiano das mulheres indígenas no Brasil, e em especial sobre as mulheres macuxi, estes estudos se apresentam de modo ainda fragmentado e/ ou estereotipado. 

    As mulheres pesquisadoras elaboram reflexividades específicas, nesse caso sobre as violências contra a mulher praticadas pelos próprios indígenas e a superação do medo e do machismo indígena. 

    Mislene Metchacuna Martins Mendes – do povo Tikuna, região do Alto Solimões (Amazonas), mestre em Antropologia Social pela UFAM. Ela reflete as rápidas transformações sociais e o contato com a sociedade não indígena causaram a emergência de novos problemas nas aldeias. Frente aos problemas e garantir a segurança, os próprios Ticuna adotaram a imagem da polícia para o controle da violência entre o grupo. Assim ela elabora suas reflexividades (2021, 83-84):

    Numa época de vitimização pela ineficácia das autoridades políticas tradicionais, aliada à ausência da política estatal de segurança pública, a polícia indígena surgiu por iniciativa de um grupo específico de lideranças como um dispositivo de poder, uma proposta indígena de recuperar certos costumes e acabar com a sensação de insegurança entre os demais moradores de suas comunidades. (…). Não há dúvida que o fato de terem criado um mecanismo de poder e de controle da violência foi a melhor estratégia encontrada pelos Ticuna naquele momento e, por isso, não convém impor a eles juízos de valor sem antes abrir espaço para compreender de que se trata a partir de um olhar antropológico. 

    Suas reflexividades contribuem na organização da política ticuna e mostra que a segurança reivindicada pelos ticuna revestida de poderes e uniformes de polícia nem sempre gera o bem-estar e o bem-viver de um povo. 

    Clarinda Maria Ramos – do povo Sateré, é graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA), mestra em Antropologia Social (PPGAS/UFAM). A sua dissertação narra sua trajetória de vida sofrida fora de sua comunidade de origem, relembra sua infância com os pais, contato com a escola, a igreja, a vida como trabalhadora na cidade e seu ingresso na universidade, sempre marcada por preconceitos e negações. Veja o que ela diz (2021, pág. 87): 

    O exercício de voltar e olhar para o passado, analisar e refletir sobre os acontecimentos que compõem minha trajetória, permite-me reconstruir o caminho, de modo que cada passo tem um sentido e reflete a luta travada comigo mesma para enfrentar os percalços para me inserir no contexto dito “civilizado” em tempos remotos. Por outro lado, esse esforço permitiu-me olhar de modo analítico sobre a realidade atual da minha região, ao fazer a coleta de informações para meu trabalho de pesquisa em Antropologia.

    Suas reflexividades narram sobre as situações que os indígenas caem nas garras da colonização, evangelização e a resistência silenciosa dos pais que buscavam ensinar conhecimentos originários Sateré-Mawé. As reflexividades mostram como uma mulher Sateré-Mawé produz suas trajetórias de vida.  

    Deyse Silva Rubim – do povo Kokama. Graduada em Letras (UFAM) e mestra em Antropologia Social (UFAM). As suas reflexividades mostram as trajetórias de vida, os conflitos históricos de seu povo, abordando as condições sociais e políticas das comunidades kokama. Elas produz as reflexividades pela atuação da Irmandade da Santa Cruz, missão jesuítica que atua entre os Kokama e que é responsável pela introdução e manutenção de ritos cristãos severos, praticados em detrimento das concepções indígenas. Conforme afirma a autora (2021, 105): 

    Os sistemas religiosos geraram um impacto relevante na vida dos povos indígenas do Alto Solimões (AM), inclusive para o povo Kokama. Dessa forma, busquei analisar as condições históricas, sociais e políticas que possibilitam a construção de novos espaços e novas formas de sociabilidade nas comunidades indígenas kokama da cidade de Santo Antônio do Içá, no estado do Amazonas.

    Qualquer contato com povos diferentes transforma os modos de vida das pessoas. No caso da Igreja mais ainda, pois ela chega com projetos de cristianização e civilização das populações consideradas como pagãos, selvagens, aborígenes, etc. 

    Gilberxe Santana Penaforte – da etnia Kaixana, do município de São Paulo de Olivença (AM) é neto dos rezadores Onofre Antonio Penaforth e Darcy. É mestre em Antropologia Social pela UFAM. O autor apresenta as transformações sociais vividas por seu povo. Há imposição sistemática do processo colonial e civilizatório (2021, 124): 

    Nos processos coloniais que constituíram identidades, as pessoas que mais sofreram foram os indígenas, impedidos de praticar seus costumes e obrigados a falar a língua do não indígena. Além de ser uma forma de humilhação, isso fez com que alguns grupos étnicos não falassem mais suas línguas maternas que outrora falavam em seu meio sociocultural e que, com o passar do tempo, entraram em desuso, passando o português a ser a sua língua corrente. Exemplo disso são os Kaixana, para quem o português passou a ser a língua utilizada pelos indígenas.

    Em meio a muitos povos indígenas as Organizações Indígenas foram importantes para a recuperação de suas línguas.  

    Mayra Luz Alvarado Davila – da comunidade Yahua “Nova Vida”, Distrito de Punchana, Província Maynas, Dpto. Loreto, Iquitos – Perú; mestra em Antropologia Social pela UFAM. Ela reflete sobre a trajetória de recuperação, valorização e fortalecimento da língua kokama. Mostra como os Kokama, vivendo fora de seu lugar de origem, conseguem fortalecer sua pertença étnica, assumem uma educação intercultural aprendendo a língua portuguesa e espanhola. Explica a autora (2021, 150): 

    Este trabalho apresenta a dinâmica étnica kokama e o interesse no ensino da língua espanhola para a educação indígena kokama. O ensino do espanhol concretiza o direito à educação, considerando que esta língua é de suma importância. Além de estarem cercados de países de fala hispânica, para os Kokama, o espanhol tem um sentido importante relativo à sua língua e a seus antepassados, que será transcendente na vida deles e no futuro de sua cultura.

    As crianças Kokama aprendem suas línguas de origem abrindo para horizontes linguísticos, plurilinguísticos, etc. 

    Dagoberto Lima Azevedo – do povo Tukano; mestre e doutor em Antropologia Social (UFAM). Na sua dissertação narra como as personagens humanas e não humanas disputam, trapaceiam, enganam, criam, negam, rejeitam e constroem o parentesco e oferecem e recebem alimentos num constante e necessário sistema de trocas. O texto apresenta conteúdos profundos das cerimônias rituais dos povos indígenas da família linguística tukano oriental e outros povos que utilizam a folha de coca em suas cerimônias, como ativadores de diversos conhecimentos. 

    Silvio Sanches Barreto do povo Bará, município de São Gabriel da Cachoeira (AM), mestre e doutor em Antropologia Social (PPGAS). Elabora as reflexividades sobre a concepção, a gestação, o nascimento e o cuidado de uma criança. Retoma as práticas de vida de seus antepassados e destaca a importância do seguimento das regras requeridas pelos pais e pessoas especializadas para a garantia de um parto exitoso e uma boa educação da criança. Apresenta conhecimentos específicos dos homens e das mulheres para o cuidado da vida biológica desde a concepção de um novo ser e durante todos os ciclos de vida.  

    Jaime Fernandes Moura (Diakara) – do povo Desana; mestre e doutorando em Antropologia Social (UFAM). Ele apresenta diversos conhecimentos relacionados com a fermentação da bebida denominada de pehru (caxiri), uma especialidade das mulheres. Os conhecimentos são representados pelos complexos e coloridos desenhos, causando um efeito visual ao leitor, e levando-o a viajar pelos patamares: aéreo, aquático e terrestre.

    João Paulo Lima Barreto – do povo Yepamahsã-Tukano, graduado em Filosofia; mestre e doutor em Antropologia Social (UFAM). O autor descreve a aplicação dos bahsese (ativação de efeitos preventivos e curativos) aos homens e às mulheres atendidos pelos kumua no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, na cidade de Manaus. Inspirado pelos saberes transmitidos de seu pai, irmãos, tios e seus “cunhados”, o autor elabora os saberes ligados aos componentes do corpo e descreve como este se transforma, articula e se desfaz por meio dos poderes dos bahsese. 

    Wede yapadore – Concluindo a conversa!

    Concluo esse artigo fazendo menção à minha tese de doutorado que trata da festa das frutas. Os Kumua e Bayaroá (cantores) por meio da festa fazem a cerimônia de prevenção de doenças para que as pessoas possam crescer com saúde, a aldeia se mantenha tranquila e as roças sejam bem cuidadas. Os Bayaroá animam com seus cantos e danças aos seus parentes, cantando e dançando afastam as danças e atraem as energias para garantir o bem-viver. Seus cantos e danças criam conexão de amizade e respeito com o cosmo e todos seus habitantes. A nossa existência é como uma festa, as pessoas que envolvem, trabalham, dançam, cantam, cansam, se embriagam, ausentam-se da casa de festa e vão para suas casas, assim termina a festa, assim deixamos de viver nesse mundo. 

    Referências bibliográficas

    Azevedo, Dagoberto Lima. 2021. “Roubo e retirada das folhas de pátu”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 187-205. Brasília – DF: Mil Folhas.

    Barreto, João Paulo Lima. 2021. “Uma etnografia das práticas de bahsese”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 242-264. Brasília – DF: Mil Folhas.

    Barreto, Silvio Sanches. 2021. “Transformações pelo basesé nas práticas tukano sobre a concepção, gestação e nascimento da criança”, En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 207-229. Brasília – DF, Mil Folhas, 2021.

    Dávila, Mayra Luz Alvarado. 2021. “Ensino e aprendizagem da língua espanhola para indígenas Kokama em Manaus”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 147-165. Brasília – DF, Mil Folhas.

    Diakara, Jaime. 2021. “Numiã amukã wehta niãse – um ensaio sobre fermentados entre os desana”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 231-239. Brasília – DF, Mil Folhas.

    Mendes, Mislene Metchacuna Martins. 2021. “A trajetória da polícia indígena do alto Solimões: política indigenista e etnopolítica entre os Ticuna”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 67- 84. Brasília – DF, Mil Folhas. 

    Penaforte, Gilberxe Santana. 2021. “Identidade cultura e pertencimento Kaixana com base no estudo de identidades relacionais”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 123-145. Brasília – DF, Mil Folhas. 

    Ramos, Clarinda Maria. 2021. “A saga pelo Caminho possível”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas. organizado por Justino S. Rezende, 87-104. Brasília – DF, Mil Folhas.

    Rengifo, Roberto Suarez. 2021. “A interpretação dos desenhos Kene Shipibo Conibo”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 21-44. Brasília – DF, Mil Folhas. 

    Rezende, Justino S. 2021. “Soprar as palavras”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 167-185. Brasília – DF, Mil Folhas.

    Rezende, Justino Sarmento. 2023. A festa das frutas: uma abordagem antropológica das cerimônias rituais entre os Ʉtãpinopona (Tuyuka) do alto rio Negro. Brasília – DF, Mil Folhas. 

    Rubin, Deise Silva. 2021. “Transformações culturais da etnia Kokana em Santo Antonio do Içá/AM”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas. organizado por Justino S. Rezende, 105-120. Brasília – DF, Mil Folhas. 

    Santos, Iranilde Barbosa dos. 2021. “Violência contra mulheres indígenas Macuxi: de experiências narradas a soluções coletivas”. En Paneiro de saberes: transbordando reflexividades indígenas, organizado por Justino S. Rezende, 45-66. Brasília – DF, Mil Folhas.


    1 Do povo Ʉtãpinopona (Tuyuka), originário da aldeia Yaiñiriya (Onça-Igarapé), distrito de Pari-Cachoeira, município de São Gabriel da Cachoeira – Amazonas. Estudou o Ensino fundamental em Pari-Cachoeira (1970-1979) e Ensino médio no Colégio Dom Bosco (|Manaus: 1980-1982). Formação universitária: Licenciatura plena em Filosofia (UCB/DF), Bacharelado em Teologia (FTNSA/SP), Mestrado em Educação (UCDB/MS), Doutorado em Antropologia Social (PPGAS/UFAM), pós-doutorando em Antropologia Social (PPGAS/UFAM) e membro do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI/UFAM).  
    2 Tradução literal da língua tuyuka para a língua portuguesa: Kʉã (eles/deles) tʉgeñare (reflexões) hoaturige (escritos); significa: escritos de suas reflexões.